
As mudanças sociais, em países (dito) democráticos, como o Brasil, acontecem muito lentamente, e tudo é conduzido de acordo com os anseios da população. Quanto mais o povo for educado, mais questionará ações afirmativas que garantam os seus direitos, e condenará práticas ultrapassadas e abusivas, que já não se ajustarem ao conceito de modernidade, de acordo com a consciência e com o avanço de cada geração.
As leis surgem da necessidade que um povo tem de ser mais justo, em consonância com o bem-estar, e, agora e sempre, com a garantia dos Direitos Humanos.
A liberdade de expressão é uma das garantias das constituições democráticas. A constituição brasileira de 1988, garante em seu artigo 5º, além mentira de que "todos são iguais perante a lei", também no parágrafo IV, do mesmo artigo 5º, que "é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato". Portanto, a Constituição cidadã 1988 - e todas as outras (sete) constituições que a antecederam - nega a cidadania aos militares brasileiros, já que só temos o direito de nos manifestarmos publicamente, com a devida autorização superior. Do contrário...
No Brasil inteiro, acontece um fenômeno - mesmo à margem dos regulamentos disciplinares e, por isso, com muitas punições - que está chamando a atenção de muitos estudiosos, e até da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), que é o aumento dos blogger militares na internet. A curiosidade, com certeza, é porque nós, militares, , fomos eternamente tolhidos do direito de ponderar, do direito de agirmos sem ordenarem ou de falarmos sem permissão. E agora, com os blogger militares, todos ficaram espantados, como se, de repente, descobrissem que militar - sobretudo dos postos inferiores - sabe pensar, falar, gritar, articular, entender, comunicar, etc.
O nosso grito soa estranho, em princípio, porque somos sufocados diária e historicamente, e não aprendemos a gritar comedido e harmoniosamente. É porque o nosso urro, na maioria das vezes, é de desespero, de dor. Um grito de quem passou a vida inteira sendo amordaçado e que não resiste mais, porque precisa falar, se fazer entender. O nosso grito é o de quem disse que o coturno estava apertado, que o pé doía, e que foi desaconselhado a parar para descansar. Não, não se trata de um grito de levante - como poderia pensar os "cascas grossas" e os sem-argumentos - mas um grito tardio de quem busca a cidadania plena.
Quando entrei na Polícia Militar do Piauí, no início da década de 90, um dos jargões que mais se ouvia nos quartéis era o de que soldado só podia dizer: "sim, senhor e não, senhor!". Hoje pagamos por isso, pois temos alguns policiais acanhados, tímidos, de pouco argumento; embora, corajosos, vocacionados e inteligentes. Fomos obrigados a ouvir uma 'voz de comando' para sermos ativos ou reativos, mesmo que essa voz fosse a de um incompetente. Muitos de nós, só aprendemos a agir por impulso, inconscientemente. E muitos ainda só sabem dizer: "sim, senhor e não, senhor!".
Os blogger são, atualmente, algo indispensáveis aos policiais militares do país, embora já tenha havido muitas prisões, ameaças e incompreensões por partes de alguns superiores. Nós, militares, só queremos o direito constitucional de espernear, como é garantido a cada cidadão desse país. As polícias militares evoluem à medida que renovam os seus quadros com homens e mulheres que buscam, a qualquer custo, mostrar que somos seres humanos, com virtudes e defeitos; que mesmo ao nos expressarmos, garantiremos que os pilares fundamentais das organizações militares - a hierarquia e a disciplina - não sofrerão abalos irreparáveis, que não acabarão como uns temem e outros desejam; que a continência - que ainda refresca o ego de muitos superiores hierárquicos - não vai acabar. Pois o que queremos dizer ao nos manifestarmos em blog ou qualquer meio de comunicação é que nenhum regulamento deveria sobrepujar a Lei maior: a Constituição brasileira. E que res peito, compreensão, ética e as liberdades fazem bem, e todo mundo gosta.
Viva a PEC 300.
Vidal CarvalhoSoldado da Polícia Militar do Piauí